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quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Curso a distância para docentes cresce 270%

Formação a distância para professores da educação básica divide pesquisadores; segundo o MEC, faltam 246 mil docentes no país

Fábio Takahashi escreve para a "Folha de SP":

Enquanto as matrículas em cursos presenciais para formação de professores para educação básica estão quase estagnadas, a modalidade a distância vive uma explosão: em cinco anos, foram 270% de aumento.

No mesmo período, as matrículas presenciais (em licenciaturas, normal superior e pedagogia) cresceram apenas 17%.

A modalidade em que os alunos não vão todos os dias às faculdades tem sido uma opção para combater o déficit de professores na educação básica do país. Segundo o Ministério da Educação, faltam 246 mil docentes no país; 300 mil não são formados na área de atuação.

Especificamente em pedagogia (que forma educadores para ensino infantil e primeira fase do fundamental), houve até um recuo de matrículas no sistema presencial, de 4%, enquanto os cursos a distância cresceram 183%. Assim, para cada três matrículas presenciais nessa área, já há uma a distância.

Os dados foram tabulados com base no Censo da Educação Superior por Jaime Giolo, ex-diretor do Inep (instituto de estudos do MEC) e docente da Universidade de Passo Fundo (RS) -2006 é o último ano com informações disponíveis.

Divergências

A formação a distância para professores da educação básica divide os pesquisadores. "É uma resposta precária à necessidade de formação de professores", afirma o coordenador da pós-graduação em educação da USP, Romualdo Portela.

Giolo se mostra contrário. Para ele, um dos problemas é que o futuro professor não convive, durante o curso, com situações como enfrentamentos e conversas em sala, o que poderá pesar quando for efetivamente um docente.

A ex-secretária estadual de Educação de São Paulo e diretora-presidente do Instituto Protagonistes, Rose Neubauer, discorda. "Ou continuamos com falta de professores ou utilizamos a tecnologia para aumentar o número", diz.

Nos cursos a distância, centenas de alunos podem ver uma aula ao mesmo tempo, via satélite, que complementa as apostilas e a internet.

Para Neubauer, o ensino a distância permite, inclusive, que haja melhoria na qualidade. "Um bom professor pode dar aula ao mesmo tempo a um número incontável de alunos".

Estudo divulgado no ano passado pelo MEC mostrou que os calouros de cursos de pedagogia a distância tiveram notas melhores que os de presenciais no Enade (antigo provão). A situação, porém, se inverte com os formandos dos cursos.

Mais alunos

"Com a modalidade, chegamos a 39 locais do país", diz a assessora pedagógica da Universidade Metodista de SP, Adriana Barroso de Azevedo. Em pedagogia, são 1.500 alunos (mais que no presencial).

Outra instituição que possui mais alunos em pedagogia a distância do que no presencial são as Faculdades COC. A escola tem 148 pólos em 22 Estados; oito na capital paulista.

"Os alunos desses pólos poderiam fazer o presencial, mas preferem a flexibilidade da modalidade", diz o diretor da escola, Jefferson Fagundes. "Também pesam as mensalidades".

No COC, pedagogia presencial custa R$ 350 e R$ 176 no a distância. Na Metodista, os valores são R$ 383 e R$ 207.

Aluna de pedagogia a distância, Lilian Georgeto, 34, diz que escolheu o curso por "comodidade". Ela mora em Osasco (Grande SP). "Tenho dois filhos, não poderia ir à faculdade todos os dias. O curso é bom, tenho contato com colegas do país todo. Mas sinto falta da convivência com professores".

Segundo o secretário de Educação a Distância do MEC, Carlos Eduardo Bielschowsky, a intenção é que a modalidade "complemente" a presencial.

"Ela supre os locais onde não há um bom curso. É ideal também para professores que estão em serviço e não podem parar para se formar", diz.

Bielschowsky afirma que esse é o público preferencial da Universidade Aberta do Brasil, criada em 2005 e que possui 100 mil matriculados.

A modalidade também será utilizada pelo governo estadual paulista, por meio da Universidade Virtual de SP. "Levaremos cursos da USP, Unesp e Unicamp a todo o Estado. Isso seria praticamente inviável pelo presencial", diz o secretário de Ensino Superior, Carlos Vogt.

Qualidade de curso ainda é duvidosa, diz pesquisadora

Coordenadora do Preal (Programa de Promoção e Reforma Educativa da América Latina e Caribe), a pesquisadora Denise Vaillant afirma que a formação inicial dos professores deve ser feita em "escolas reais, e não virtuais". A uruguaia aponta falta de qualidades em cursos a distância.

- Como a senhora avalia os cursos a distância para formação de professores?

O problema é que muitos desses cursos têm qualidade duvidosa. A formação inicial dos professores exige atividades presenciais em centros de práticas. A formação de docentes requer trabalhos em grupo, prática nas escolas, o que não é possível fazer a distância. O que é possível é oferecer cursos de formação continuada a distância.

- Se são tão criticadas, porque eles crescem tanto?

Como há muitas carências para a formação de professores, há demanda pelos cursos. Nem toda oferta é ruim, há propostas com potencial.

- Algum país da região criou bons projetos?

Chile e Colômbia têm bons modelos de formação, mas de educação continuada. Para a formação inicial, não há experiência na América Latina suficientemente avaliada e com resultados.

Quem diz que curso presencial é bom?, questiona professor

Professor da USP e presidente da Abed (Associação Brasileira de Educação a Distância), Frederic Litto rebate as críticas em relação à qualidade dos cursos a distância para formação de professores. "Até agora, ninguém mostrou dados quanto a isso. Nem dá para considerar."

O americano, que coordenou até 2006 a Escola do Futuro da USP, questiona ainda a qualidade dos cursos presenciais de formação docente. "Quem disse que são bons?"

- Por que o ensino a distância cresce tanto nessa área?

Há muitos professores no Brasil sem o curso superior. Como tirá-los do trabalho para fazer a atualização? Só pode ser com a flexibilidade do ensino a distância.

- Uma das críticas à modalidade é que os alunos têm pouca convivência universitária, o que pode influenciar no momento de dar aulas. Como o senhor avalia isso?

A maioria dos estudantes já são professores. Eles já conhecem a prática e precisam da teoria. Como o curso de pedagogia é bastante teórico, ele pode ser a distância. E complementado com estágios.

- Há críticas também quanto à qualidade.

Até agora, ninguém mostrou dados quanto a isso. Aliás, quem disse que os cursos presenciais são bons?
(Folha de SP, 4/11)

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